A vida é mais forte do que a morte e mais forte do que os poderes da morte

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Dom Karel Choennie, Homilia da Páscoa de 01, abril de 2018 –

Como Bispo recém-consagrado mudei-me para a casa episcopal. Ao lado da casa há um abacateiro famoso. Famoso porque Dom Zichem sabia alegrar muita g ente com os maiores e mais deliciosos abacates de Paramaribo. A árvora estava cheia de ervas-de-passarinho e toda vez que você as cortava, elas cresciam novamente tão rápido como câncer. Haviam galhos secos e podres que se quebravam e caiam de repende com um tapa. A árvore estava pendida e o jardineiro disse: “Ela cairá sobre a casa”. Ela está velha e doente, coberta de ervas-de-passarinho e de cupins e está oca por dentro.

Quando você recebe um poder, você deseja realizar ações para mostrar que pode fazer alguma coisa. Então eu disse: “Cortamos a árvore!”, pois ela não dá mais frutos há anos. Mas eu também conhecia a parábola de Jesus que diz: “Dê à árvore ainda mais um ano, se mesmo assim ela não der frutos, então corte-a”. Mas isso certamente não se aplicava aqui, pensei. Eu liguei e ouvi a palavra ‘sim, nós estamos indo”. Depois de um mês ninguém apareceu. Então, novamente eu liguei e disse “essa árvore tem que ser cortada, pois vai cair na minha casa, está cheia de ervas daninhas. Na próxima chuva de ventos minha casa será atingida”. “Sim, não sabíamos que era tão grave, estamos indo imediatamente”. Mais um mês ou dois se passaram e não vi ninguém.

Quando eles vieram depois de semanas de insistência, a árvore parecia cheia de flores. “Monsenhor”, disse Joyce (Joyce é minha Florance como em The Jeffersons), “O senhor não pode cortar essa árvore! Está cheia de flores. “Minha consciência começou a falar. Mas sim, aí está você com sua autoridade episcopal, que não é prejudicada por uma empregada doméstica. Mas quando ela disse de modo ameaçador: “Porque Deus vai te castigar”, a escolha foi feita. “Bem, eu disse, nós só cortamos as ervas daninhas e os galhos secos”. Mas isso também não funcionou, porque também os galhos cheios de ervas daninhas queriam provar que poderiam dar os melhores abacates. Então esperamos até as flores cairem. Nós nunca comemos tantos abacates dessa árvore.

Então veio o momento em que teve que ser podada. Para nosso horror, havia duas raízes grossas do ervas-de-passarinho com um diâmetro maior do que uma bola de tênis atravessando o tronco oco que quase penetrava as raízes da árvore. Foi muito difícil ver todas as ervas-de-passarinho serem arrancadas da árvore. As raízes das ervas foram tratadas com veneno pesado e eu temia que a árvore também fosse se desmoronar. Eu tinha começado a amar aquela árvore como a um ser humano. Cheio de preocupações, olhava para a árvore cedinho todas as manhãs, alguns ramos tinham sobrevivido. Eu já tinha me tranquilizado que um lindo tronco ficaria onde penduraria minhas orquídeas. Mas depois das chuvas dos últimos meses, de repente, vi um galho do tronco trincado. A princípio pensei, novamente uma erva-de-passarinho, mas com o passar dos dias ficou cada vez mais claro que um alaúde surgira do tronco de Jesse.

Por que eu lhes conto essa história? Nessa Páscoa gostaria de refletir com vocês sobre corrupção. O que é corrupção? Literalmente, significa uma podridão por dentro. Meu abacateiro é o Suriname e a erva-de-passarinho é a corrupção. Sobre a corrupção, a doutrina social católica diz:
“Entre as deformações do sistema democrático, a corrupção política é uma das mais graves[843] porque trai, ao mesmo tempo, os princípios da moral e as normas da justiça social; compromete o correto funcionamento do Estado, influindo negativamente na relação entre governantes e governados; introduzindo uma crescente desconfiança em relação à política e aos seus representantes, com o conseqüente enfraquecimento das instituições. A corrupção política distorce na raiz a função das instituições representativas, porque as usa como terreno de barganha política entre solicitações clientelares e favores dos governantes. Deste modo, as opções políticas favorecem os objetivos restritos de quantos possuem os meios para influenciá-las e impedem a realização do bem comum de todos os cidadãos”. (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, no. 411)

O Papa Francisco diz o seguinte sobre a corrupção:
“Para todo aquele que tem alguma autoridade sobre os outros vale dizer que o pecado mais sedutor é o pecado da corrupção. E os “mártires” da corrupção – aqueles que, em última instância, têm que pagar a conta porque políticos, financistas e também autoridades eclesiásticas abusam de seu poder – são os pobres e marginalizados “.

A homilia do papa baseou-se na leitura de 1 Reis 21,1-16, na qual o rei Acabe da Samaria achava que tinha direito a um vinhedo vizinho cujo proprietário era Nabote que se recusara a vender sua posse ao rei. A esposa de Acabe, Jezabel, então maliciosamente mandou matar Nabote e, depois que isso aconteceu, Acabe pôde tomar posse da terra de Nabot.

“Esta história continua a ser repetida por pessoas com poder material, político e espiritual. A tentação à corrupção é muito grande: todos nós podemos admitir isso, porque quando alguém tem autoridade sente-se poderoso, quase como Deus. Aqueles que cometem corrupção levam uma vida que é envolta em certo senso de segurança, bem-estar, dinheiro, mas também poder, vaidade e orgulho. Mas quem paga a conta de tal vida de corrupção? Esses são os pobres. Quem paga são os hospitais sem remédios, os doentes que não recebem cuidados, as crianças que não recebem educação. Eles são os Nabotes contemporâneos, que pagam pela corrupção dos meninos grandes.” (Catholic News Service, 16 de junho de 2014)

Mais tarde, em Laudato Si, o Papa dirá que são os pobres e a natureza que pagam e pagarão o preço do estilo de vida dos ricos. No entanto, ele permanece otimista porque confia na juventude. Devo dizer honestamente que quase perdi a confiança em nossa juventude surinamesa, mas olhando para o papa Francisco e os pequenos ramos que continuam a crescer no tronco do Estado constitucional democrático do Suriname, também comecei a ter nova esperança.

O abacateiro, com seus pequenos brotos, me convenceu de que Deus plantou na natureza e nas pessoas uma força de vida invencível que é mais forte do que a morte e os poderes da morte.

Páscoa, 1 april 2018
+Karel Choennie

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